A morte na visão de São Francisco
Dom Celso Franco de Oliveira, tssf

          É bastante curioso e significativo chamar a morte de “trânsito", porque a palavra “trânsito”, segundo o nosso vernáculo, significa movimento, percurso, marcha, efeito de caminhar, e é nesse sentido que para se falar da morte de São Francisco, temos que ter em mente a morte não com um fim-fim mas como trânsito, dando-nos a idéia de que o nosso Francisco não se acaba, não desaparece, pelo contrário transita entre nós, se eterniza, continua vivo e se presentifica, não somente entre os religiosos mas também no mundo secular, constituindo-se hoje, para o nosso adoecido ecossistema, uma espécie de ícone no resgate da qualidade de vida neste planeta terra que “ geme com dores de parto, aguardando a adoção dos filhos,” como disse São Paulo na sua Epístola ao Romanos.

          Lembro-me ainda da palavra “trânsito” quando, há poucos anos atrás, participei de uma jornada de psicanálise no Colégio dos Cirurgiões em Botafogo, cujo tema da Jornada foi “Winnicott em Transito” ocasião em que celebrava os cem anos desse inesquecível psicanalista inglês cuja contribuição psicanalítica continua em ressonância dentro dos nossos consultórios até hoje. Winnicott fez o seu trânsito em 1971 deixando em um de seus livros o seguinte testamento: “Quero estar vivo no momento da minha morte”.

          A história de São Francisco, particularmente, o seu jeito de ser, sua trajetória de vida e, principalmente, a forma como encarou o seu “trânsito”, poderia nos autorizar a falar de São Francisco em Trânsito, em movimento, um homem a caminho, ou ainda, se quisermos, São Francisco “em transe”.

          Basta aprofundarmos algumas considerações psicológicas sobre seu estilo de vida, para descobrirmos um homem em transe, não no sentido daquilo que chamamos “estados alterados de consciência” induzido por um procedimento hipnótico, letárgico, mas um transe vivido como experiência do êxtase e do numinoso, aquela experiência capaz de alterar o nosso olhar sobre o mundo, capaz de transcender, de superar, de re-significar a existência e de colocar- nos em inteira disponibilidade como quem se transfigura.

          Assim vemos um São Francisco transfigurado quando mesmo doente e cego, cantava seu cântico ao irmão sol embora não pudesse mais contemplá-lo. É que o sol que Francisco canta não é o sol que conhecemos, mas o sol de sua interioridade, das suas riquezas interiores, porque só percebemos o brilho lá fora quando há brilho dentro de nós.

          Quando se vive uma experiência de transfiguração, a morte sempre entendida como desenlace final, se transforma em trânsito. Deixa de ser um espantalho humano, para encapsular-se na própria vida. Vida e morte se eclipsam, como de forma brilhante nos diz Leonardo Boff: “O sentido que damos à vida é o que damos a morte e o sentido que damos à morte é o sentido que damos à vida” A morte na visão de São Francisco vinha com um sabor de plenitude numa compreensão simbólica, mística, sapiencial e planetária.

          Lamentavelmente, somos herdeiros de tradição cultural Newton-Cartesiana, onde a matéria e espírito se separam e se bifurcam em corpo e alma, como ainda quer pensar hoje a Igreja. Francisco foi o santo das sínteses e da reconciliação de tudo .

          Hoje, a neurociência que vai ganhando mais espaço nas pesquisas neurológicas, nos dá conta que o nosso hemisfério cerebral, direito e esquerdo, com seus milhões de neurônios, interagem no corpo caloso, não mais entendidos como duas estâncias separadas, mas como superação unitária. Ambos com sua capacidade de síntese, vão formar o que os antigos chamavam de terceira visão ou o “chifre do unicórnio” neste sentido é que a visão de Francisco sobre a morte, vai dar lugar à síntese da vida e longe da morte ser o lugar mórbido, de prantos e culpabilizações, transforma-se em acolhimento, num espaço de cantoria, entoada não somente pelos seus confrades presentes mas também pelo contracanto sinfônico de toda criação.

          A vida e o trânsito de São Francisco, nos fascina, na medida em que nos indagamos pela psicogênese de suas gigantescas superações, sua coragem, desprendimento, energia e sobretudo sua resiliência, aquela capacidade que alguém possui no sentido de superar adversidades. De romper com apegos que impedem de buscarmos nossa singularidade, livrando-nos, assim, de vivermos assujeitados ao desejo do outro sem que tenhamos a capacidade de nos tornar pessoas inteiras e desenvolver nossas potencialidades como indivíduos. E a primeira “morte”, o primeiro “corte” que Francisco constrói foi o sua individuação com o seu pai e na seqüência com o Bispo local.

          Francisco vai individualizar-se em relação a seu pai, o Sr. Bernardoni, um pai dominador, consumista, que passa a maior parte de sua vida pensando mais nos seus lucros como comerciante, do que perceber a grandiosidade do filho. É significativo o gesto de Francisco tentando se libertar desse domínio paterno, quando sai pelas ruas distribuindo os bens do Sr. Bernardoni entre os pobres. Numa interpretação elementar desse gesto se poderia dizer que ao mesmo tempo em que distribuía os bens do pai entre os pobres, tornava-se Francisco, ele mesmo, o bom pai que nunca teve. Era ele ainda o próprio pobre, o mendigo, o leproso, numa relação simultânea de sujeito e objeto.

          O temor de perder na vida a oportunidade de relacionar-se, de viver radicalmente o amor que tanto pregou, de ser notado, de ser olhado, e desejado pelo pai, levou Francisco a desnudar-se, de despir-se diante do próprio pai sinalizando em primeiro lugar a quebra das relações que segundo consta não eram das melhores. E em segundo lugar, o rompimento com o sistema capitalista com o qual o pai e a Igreja na pessoa do Bispo, estavam comprometidos.

          Uma vez completamente desnudo, Francisco entrega seus trajes ao pai. A nudez do jovem parece falar de seu desejo de mostra-se sem máscara diante do pai, esperando dele uma certa reação de condescendência ou um gesto que expressasse algum sinal de acolhimento paternal. É que o temor que mais nos atinge enquanto seres humanos é o temor do desamparo, o medo da solidão que sempre se reporta a perda do amor do pai.

          Experienciando a dor da falta do amor do pai real, Francisco vai singrar outros mares no encalço de outras pais simbólicos. Afinal, Francisco sente uma extrema necessidade de substitutivos simbólicos capazes de “ressuscitá-lo” da morte de sua relação perdida. O texto de sua conhecida oração, especialmente onde encontramos as palavras “onde houver discórdia que eu leve a união, onde desespero que eu leve esperança, que eu procure mais consolar que ser consolado” encontramos Francisco falando de si mesmo, aludindo seus próprios registros internos numa tentativa de superação dos mesmos.

          Alguém disse que “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se refaz, e esta ordem superior e a vida” Francisco se identifica com EROS o representante da Pulsão de Vida, pulsão que nos autoriza a liberdade, a espontaneidade, a fantasia e a expressão do desejo. Francisco de forma heróica e, quase sobre-humana, transpôs os umbrais da pulsão de morte, do sentimento de terminalidade. Irmana-se com a morte num vínculo de cumplicidade e companheirismo.

          Esse “irmão-sempre-alegre” como costumeiramente é chamado, torna-se alguém para além do inorgânico ou para onde nos arrasta e nos atrai a pulsão de morte. Superando de forma inequívoca as categorias maniqueístas do bem e do mal, Francisco se transfigura numa espécie de hispóstase cósmica, reconcilia-se com todas as criaturas, mergulha no mistério insondável, vive como ressuscitado ainda que na existência terrena. Traz dentro de si a sensação intensa de êxtase, perde o “self-objeto” percebendo-se não limitado ao corpo.

          Sua morte cantada, longe de ser uma experiência terminal, e recebida como a entrada do vazio para a plenitude, do finito para o infinito, da falta para a totalidade. Francisco vira símbolo de toda saudade e de todo desejo de completude humana e não humana e, mais que isso, Francisco se consagra como um dos arquétipos da humanidade reconciliada.

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